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A arte de falar

Martha Medeiros

É difícil dizer o que é mais belo em Fale com Ela, o novo filme de Pedro Almódovar, e o mais sofisticado de sua carreira, ele que se consagrou através de estética kitch. A música é sublime, os números de dança são emocionantes, o elenco é perfeito, e o roteiro é obra de gênio. Dito tudo isso, ainda não se disse nada.

Não há resumo que possa situar esse filme. Já se escreveu: é a história de um jornalista e um enfermeiro que tornam-se amigos enquanto cuidam de suas namoradas, ambas em coma. Disseram também: é a história de dois homens que têm sua sensibilidade revelada. Nada mais difícil do que ser sintético diante do arrebatamento que acontece dentro da sala do cinema.

O filme é sobre a dificuldade de comunicação que há nos dias de hoje, é sobre nossa solidão e o quanto ela é provocada por nós mesmos, e não pelas fatalidades. É um filme sobre relacionamentos, sobre como nossas primeiras impressões podem ser equivocadas, sobre verdades que não podem ser silenciadas e nem mesmo adiadas, sobre o tempo perdido pela prudência com as palavras, e sobre a vida perdida pela falta delas.

Uma obra-prima.

Há uma brevíssima sequência que parece insignificante, mas diz muito. Um dos personagens vai buscar uma chave com a zeladora de um prédio. Ela aproveita a oportunidade para tentar arrancar do inquilino informações sobre algo que aconteceu com alguém que ambos conhecem. O cara não conta nada. Então ela solta essa: “Nenhuma tevê esteve aqui, nenhum paparazzi, ninguém veio me entrevistar. Não dá mesmo pra confiar nos veículos de comunicação”.


Domingo, 10 de novembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.